Início / Blog

Artigo

Luto: o que sentimos depois de uma perda e quando buscar terapia

Por João Vitor Barbosa · 27/10/2026

Mãos segurando uma fotografia antiga ao lado de flores secas

O luto é a reação natural a uma perda importante, como a morte de alguém querido, e envolve tristeza, saudade, raiva, culpa, cansaço e mudanças no corpo e na rotina. Ele não segue fases em ordem fixa nem tem prazo para acabar: a dor costuma ir mudando de forma e de intensidade com o tempo. A terapia é indicada quando o sofrimento continua muito intenso por muitos meses, impede a pessoa de retomar a vida ou vem acompanhado de sinais de depressão.

Se a dor da perda trouxe pensamentos de morrer ou de não querer mais viver, ligue para o CVV no 188 (gratuito, 24 horas) ou converse pelo chat em cvv.org.br. Em emergência, ligue para o SAMU no 192.

O que sentimos no luto?

Cada pessoa vive o luto de um jeito, mas algumas experiências são muito comuns:

  • Emoções: tristeza profunda, saudade, raiva da pessoa que partiu, de Deus, dos médicos ou de si mesmo, culpa pelo que foi dito ou deixado de dizer, alívio quando houve uma doença longa, e culpa por sentir esse alívio.
  • Pensamentos: dificuldade de acreditar no que aconteceu, lembranças que voltam sem aviso, a sensação de ouvir ou ver a pessoa em casa.
  • Corpo: cansaço, aperto no peito, falta de apetite, insônia ou sono demais, baixa imunidade.
  • Rotina: dificuldade de se concentrar, de trabalhar, de tomar decisões e de lidar com tarefas práticas, como documentos e pertences.

Tudo isso faz parte do processo. Sentir raiva ou alívio não diminui o amor por quem se foi.

As fases do luto acontecem em ordem?

As cinco fases conhecidas, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, foram descritas pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross a partir de entrevistas com pessoas que estavam morrendo. Com o tempo, elas passaram a ser usadas para falar do luto de quem fica.

Essas fases ajudam a dar nome ao que se sente, mas a experiência real é bem menos organizada. A pessoa pode sentir várias coisas no mesmo dia, voltar a uma emoção que parecia superada, pular etapas. Pesquisadores mais recentes descrevem o luto como um movimento de ir e voltar: em alguns momentos a pessoa se volta para a dor e a saudade, em outros se ocupa da vida prática e das novas tarefas. Esse vaivém é saudável.

Quanto tempo dura o luto?

Não existe um tempo certo. Para muita gente, o primeiro ano é o mais difícil, porque passa por todas as datas sem a pessoa: aniversário, Natal, o dia da morte. Com o tempo, a dor costuma ficar menos constante e a saudade passa a conviver com outras coisas da vida.

Algumas perdas tendem a deixar um luto mais pesado:

  • morte repentina, violenta ou por suicídio;
  • perda de um filho;
  • perdas em que não foi possível se despedir;
  • várias perdas em pouco tempo;
  • relações muito próximas ou dependentes, ou relações com muitos conflitos não resolvidos.

O que é luto prolongado?

Os manuais de saúde mental descrevem o transtorno de luto prolongado quando, depois de um longo período, a saudade intensa ou a preocupação constante com a pessoa que morreu continuam ocupando quase todo o espaço da vida. O critério de tempo é de 12 meses depois da perda no DSM-5-TR, manual da Associação Americana de Psiquiatria, e de 6 meses na CID-11, da Organização Mundial da Saúde.

Alguns sinais que aparecem nesses casos:

  • dificuldade persistente de aceitar a morte;
  • sensação de que parte de si morreu junto;
  • evitar tudo o que lembra a pessoa, ou não conseguir pensar em outra coisa;
  • dificuldade de retomar amizades, planos e atividades;
  • sensação de que a vida não tem sentido sem quem partiu;
  • solidão intensa, mesmo cercado de pessoas.

O diagnóstico é feito por um profissional. Esses sinais servem como alerta para buscar ajuda.

Quando buscar terapia no luto?

A terapia pode ajudar em qualquer momento do luto, inclusive logo depois da perda, como um espaço para falar daquilo que muitas vezes não cabe na conversa com a família. Ela é especialmente indicada quando:

  • a dor continua muito intensa depois de muitos meses e não dá sinais de mudar;
  • você não consegue voltar a trabalhar, estudar ou cuidar de si;
  • a culpa ou a raiva tomaram conta;
  • surgiram sintomas de depressão, como perda de interesse por tudo, isolamento e desesperança;
  • aumentou o uso de álcool, remédios ou outras substâncias para aguentar;
  • você sente que precisou “ser forte” para os outros e nunca teve espaço para sofrer;
  • aparecem pensamentos de morrer para encontrar a pessoa ou de que não vale a pena continuar. Nesse caso, procure ajuda imediatamente pelo CVV (188).

O luto é só pela morte de alguém?

O luto acontece diante de qualquer perda significativa. O fim de um casamento, a perda de um emprego, a mudança de país, o diagnóstico de uma doença, a morte de um animal de estimação, a aposentadoria, a saída dos filhos de casa. Algumas dessas perdas são pouco reconhecidas pelas pessoas ao redor, e quem as vive acaba sofrendo sozinho, com a sensação de que não tem “direito” de estar tão mal. Essas dores também merecem cuidado.

Como a abordagem junguiana olha para o luto?

Na psicologia junguiana, o luto é entendido como uma travessia. A perda obriga a pessoa a reorganizar a própria identidade: quem eu sou agora, sem essa presença? Que partes de mim viviam através dessa relação?

Na terapia, há espaço para a saudade, para as lembranças, para o que ficou sem ser dito. Os sonhos com quem partiu, muito comuns no luto, são acolhidos e conversados, porque costumam mostrar como a relação está sendo elaborada por dentro. Os rituais de despedida, a fé e as perguntas sobre a morte também entram, sempre respeitando a crença de cada pessoa, como eu escrevo no texto sobre a espiritualidade no processo terapêutico. Quando o luto abala o sentido da vida como um todo, esse tema também é trabalhado, e eu falo mais sobre ele no texto sobre falta de sentido na vida.

Com o tempo, o vínculo com quem partiu pode ganhar uma nova forma, como memória, como herança, como algo que a pessoa leva adiante.

Como ajudar alguém em luto?

  • Esteja presente sem pressa. Muitas vezes, ficar junto em silêncio ajuda mais do que qualquer frase.
  • Fale o nome da pessoa que morreu. Quem está de luto costuma sentir falta de ouvir esse nome.
  • Ofereça ajuda concreta: levar comida, cuidar de uma burocracia, buscar as crianças.
  • Evite frases como “ela está num lugar melhor” ou “você precisa seguir em frente”.
  • Lembre das datas difíceis e mande uma mensagem nesses dias.

Perguntas frequentes sobre o luto

É normal sonhar com a pessoa que morreu?

Sim, é muito comum. Esses sonhos podem trazer conforto, saudade ou angústia, e costumam fazer parte da forma como a mente vai elaborando a perda.

Chorar muito tempo depois da perda é sinal de que algo está errado?

Chorar em datas importantes ou ao lembrar da pessoa, mesmo anos depois, é natural. O alerta é quando a dor ocupa quase todo o dia por muitos meses e impede a vida de continuar.

Posso fazer terapia de luto online?

Sim. Muitas pessoas preferem falar da perda estando em casa, no próprio espaço. Veja como funciona a terapia online.

Preciso esperar um tempo depois da perda para começar a terapia?

Não é preciso esperar. A terapia pode ser um apoio desde as primeiras semanas.

Precisa de um espaço para falar da sua perda?

Eu atendo adultos de todo o Brasil e brasileiros que moram fora, por chamada de vídeo, pela abordagem junguiana. Se você está atravessando um luto e quer ajuda, me chame no WhatsApp. Conheça mais sobre o meu trabalho na página inicial.

[geo_author_box]
João Vitor Barbosa em seu espaço de atendimento online

João Vitor Barbosa

Psicólogo clínico · abordagem junguiana · CRP 06/211213

Atendo adultos de todo o Brasil por chamada de vídeo, com a psicologia junguiana e uma escuta atenta à história de cada pessoa.

Conheça meu trabalho ↗

Continue a leitura

Ver todos os artigos ↗